
Irmã Erminda. O nome da freira que quase conseguiu me fazer acreditar que era totalmente incapaz de desenhar. Uma das grandes responsáveis pela minha relutância na educação em instituições onde haja freiras e padres. Culpada sim, pelo trauma que me causou durante anos a fio, onde me afastava de tudo o que exigisse lápis, tintas, esboços, mesmo que fosse por pura brincadeira.
A dita cuja Erminda era alta, magra e de nariz empinado. Usava óculos de aros finos de armação metálica dourada. Unhas perfeitamente cortadas e um andar altivo. Lembro dela a partir da 6ª série do Colégio São José do Abranches, onde fiz o antigo ginásio.
A tarefa - Fazer um quadro com gravuras de um cartaz com temas variados, vendidos na própria escola. O modelo escolhido por mim foi bem menininha. Uma garotinha desenhada num campo de flores com baldinhos e outras frescurinhas. Esse "cartaz" tinha que ser colado na moldura de madeira, que por sua vez, deveria ser maior que o tamanho do papel. Com uma técnica crítico-paranóica, cortar com estilete as beiradas do papel restante. Pintar as laterais da moldura e tacar um verniz por cima da gravura.
Tudo foi seguido passo a passo. Porém, houve uma acidente de percurso. Deixei o quadro secando ao sol e a moldura de madeira "empenou". Lógico que fiz o trabalho no dia, lógico que não havia tempo de comprar outro cartaz, lógico que chorei, lógico que minha mãe me acalmou e disse para eu explicar o que havia acontecido.
Na sala de aula, na frente de meus 30 coleguinhas, a Irmã Erminda pegou o quadro, analisou todos os lados e eu explicando timidamente o que havia acontecido, ela se manteve indiferente e PÁ! quebrou o dito cujo ao meio. Falou em alto e bom tom que era o trabalho de Educação Artística mais feio que já tinha visto na vida. Eu, com 11anos de idade quis morrer e como
Tommy (da ópera rock), me tornei cega, muda e surda para qualquer manifestação das artes plásticas.
Essa mesma Irmã Erminda me detonou numa escultura em gesso, colocando por conta própria, betume na peça, que ficou parecendo um cocô. E para completar o rol de humilhação, expôs o cocozão na amostra de fim de ano na escola. Todos acreditavam no que aquela mulher de Deus me tornou: um desastre nas artes. "Ela é boa mesmo em Português, Biologia, Inglês, tem letra bonita, é disciplinada, mas falou em desenhar, pintar, esqueça!" - esse era o mantra do inconsciente coletivo.
Isso tudo quer dizer que, passei minha adolescência, juventude e balzaquianismo sem me atrever a desenhar, e quando o fazia, já apresentava as desculpas de não ter jeito para a coisa e a mesma vergonha que passei naquele dia, na sala de aula, com a Irmã Erminda, voltava à tona.
O gelo foi quebrando quando minha sobrinha Manu, com três anos, me pediu para desenhar a
Madelaine. A animação passava na TV e no papel comecei a rabiscar. Fico perfeita! E ela vibrou com a tia que sabia desenhar. Nos dias subsequentes foram desenhadas Hello Kittys, Turma da Mônica, Meninas Superpoderosas e uma série de desenhinhos. Foi dada uma pausa. E agora, com minha filha Alice, voltei a desenhar com giz de cera, aquarela, lápis, caneta, mais empolgada que a criança. Meu traço é a mão livre, copiado de um modelo, mas estou começando a me aventurar a fazer os desenhos próprios, minha leitura particular de uma borboleta, flores, bonecas e quem sabe, da Irmã Erminda em gesso!