quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Trote universitário


Imagens revelam trote universitário na Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf). A instituição vai investigar a prática de trote com fezes de animais e urina em cursos do Campus Ciências Agrárias em Petrolina, interior de Pernambuco, do G1, AQUI
É isso mesmo que você acabou de ler, trote de calouros com xixi e merda de animais. Século XXI! Pré-geração Y, descolada, digitalizada, preocupada com o prazer ou os velhos bárbaros sem a clava?
Eu juro que não ia falar sobre o assunto, mas no dia seguinte outra notícia, Três calouros vão parar no hospital depois de trote em Ponta Grossa, AQUI, lugar onde me formei e também "escapei" do trote.
REACIONÁRIA. Foi com todos os pingos nos is, que meu recém-colega de turma de Jornalismo, até uma década atrás, um ex-jornalista, ex-professor de Educação Física, oxalá tenha se firmado em algo, me taxou publicamente. Eu era careta, estraga-prazeres, pelo simples fato de ter me recusado a participar da parte violenta da coisa. Lembro que tive que sair correndo pelas ruas e alguém me agarrou pela correntinha, que arrebentou e deixou um rastro na minha garganta. Era uma joinha de valor sentimental, depois me puxaram pela camiseta, que rasgou. Porra! me enfezei e disse "eu não quero assim!", ai um bandinho ficou meio sem ação porque comecei a gritar no meio da rua e ninguém, na verdade, acha bonito esculachar alguém contra a vontade.
Eu bebi até cair na minha vida universitária, desbravei os caminhos sexuais, paguei micos, mas coisa que eu quis, eu fiz, ninguém me obrigou, oprimiu ou fez disso seu troféu. Eu sempre achei esses trotes jogar ovo, entornar cachaça, humilhação, coisa de gente doente, nazi mesmo. Gente possuída por uma incontrolável sensação de poder, domínio, satisfação mórbida e irracionalidade.
Tentar substituir esse trote senta que eu troço, pelos modelos fraternais, culturais e educativos, pode até ser uma tentativa, mas ainda parece soar falso. Nada contra tirar um sarrinho (expressão do tempo de mamãe), como o que fizeram depois na minha turma. Chegou a professora de Sociologia I (na verdade uma colaboradora da universidade) que parecia um sargento, a mulher era tão atriz, tão atriz, que metade da sala queria trancar a matéria e tentar pegar outro professor no próximo período. Aquilo foi o máximo, todos com cara de pastel de vitrine de bar de china, quando ela revelou a "pegadinha".
Fico triste, revoltada e sem esperanças quando percebo essa selvageria. Com essa sede de mutilar a pretensa inteligência humana. Jogar excrementos numa outra pessoa? fazer aluna engolir porra, tascar misturas alcoólicas venenosas, para ser aceito na nova comunidade acadêmica? Não tolero, não aceito e um dia, talvez, eu veja essas pessoas bem castigadas. Nessa ou em outra esfera.

9 comentários:

  1. Quando eu digo que toda esta tecnologia, porque desacompanhada de qquer evolução subjetiva, vai nos levar de volta a idade da pedra o pessoal me acha exagerado....Parabéns Ronise.....

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  2. Compartilho da tua indignação. Inadmissível, inaceitável!

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  3. Eu não participei do trote quando entrei na facul. Fui tachada de antissocial. Não dei bola. Hoje em dia vejo as fotos daquele dia e chego até a sentir uma pontinha de inveja... Mas que passa logo. Esse é um ritual de passagem totalmente dispensável. Existem zilhões de maneiras de dar as boas-vindas aos calouros. Quando veterana, fizemos uma brincadeira com eles em sala de aula. A tradicional carteira de estudante. O cara fica chateado e tal quando descobre que as carteirinhas viraram copos de chope, mas é infinitamente menos humilhante do q ovos, farinha...

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  4. Minha amiga, o ser humano evolui e retrocede ao mesmo tempo. Retrocede às vezes mais rápido do que consegue evoluir.

    É só a gente pegar o exemplo dos jovens que surraram uma moça, na rua pq pensaram ser uma prostituta. OK, e se fosse prostituta, merecia por isso apanhar?

    Tenho pena da humanidade, mas tenho mais pena de pais que conseguem criar seus filhos sem a menor noção de limites, de respeito, de coletividade, de sociedade. Compartilho da indignação.
    Bjo

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  5. Eu me escondi no dia do trote. Amarraram os alunos, um no outro, e alguem vinha com um berrante atrás pra fazê-los andar como bois.
    Ontem estava vendo um espisódio de SVU, no qual três adolescentes haviam sequestrado uma colega, colocado dentro de uma mala de carro e depois torturado até que ela morresse. O argumento dos advogados era a irracionalidade causada pelo "sentimento de grupo". É mais ou menos isso que rola, todos juntos, PODER. Mas né, são todos jovens e saudáveis, não sabem o que fazem. Geração Y, triste, muito triste. :/

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  6. E esses tosquinhos que insistem em afirmar que o trote é uma tradição. Que coisa mais careta. Tradição é para ser quebrada!

    No dia em que eu sofreria trote, consegui me esquivar mas, o sargetinho do meu primo emplastrou meu cabelo com ovos quando voltei para casa.

    bjs

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  7. Ronise, tambem eu me recusei a participar do trote qdo passei no vestiba (la se vão ja algumas decadas). Mas não sofri nenhuma represalia (o povo do Dto da Federal era bem centrado). Mas tenho acompanhado o q vem ocorrendo e me sentido indignada pela constante perda de qualidade do ser humano!Nada justifica ou sequer explica atitudes desta natureza!

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  8. Equilíbrio, para que a brincadeira não se torne abusiva. Não concordo com extremos. Nem de loucura, nem de caretice. ;)

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  9. Aqui na Unicamp esse problema parece estar sob controle. Iniciativas da própria Universidade, como o Trote da Cidadania, têm servido como ponto de partida para recepções mais humanas aos calouros.
    É claro que é bacana ser recebido em um novo ambiente pelos veteranos que já estão lá -- e não me oponho a brincadeiras que respeitem a saúde e integridade física de todos os envolvidos. Mas só é bacana quando todo mundo se diverte.

    Ótimo texto!

    Fabio Piva
    http://paciencianegativa.blogspot.com

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